Educação antirracista

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Educação antirracista

Pabliane Cristina de Castro Rodriges entevista a Professora Clarissa Lima

A educação antirracista surgiu da necessidade de instruir a sociedade para uma educação que vai além daquela que conhecemos a partir da lei 11.645/08 que garante o ensino da cultura afro-brasileira nas escolas. A história do povo negro é na sua grande maioria contada a partir do olhar do branco, do colonizador, fazendo com que a verdadeira história do povo negro seja apagada.

Professora Clarissa Lima

Clarissa Lima é professora, escritora, mestranda em Educação (UFRJ), pós- graduada em Psicopedagia e pós-graduada em Relações Étnico-Raciais e Educação. É autora do Livro intitulado “Cor de Pele: valorizando as diferenças para as oportunidades serem iguais”

  • O que levou você a pesquisar e escrever sobre o tema étnico-racial?

As desigualdades étnico-raciais estão postas na sociedade. A escrita veio como ferramenta de dialogar com a sociedade, em especial educadores, a respeito. A pesquisa veio para compreender como o racismo opera para a invisibilidade intelectual de mulheres negras na Educação.

  • De onde surgiram as idéias ou inspirações para eles?

As inspirações vieram das minhas experiências em sala de aula tanto como aluna quanto como professora. Na maior parte da minha infância, estudei em escola particular, em Teresópolis Região Serrana do Rio. Então, quase sempre fui única aluna negra das turmas  que passei. Depois, enquanto professora de escola particular, também sentia-me muitas vezes só enquanto mulher negra professora. Mas a ideia de escrever o livro, foi quando percebi comportamentos que aconteciam na escola na minha infância (anos 80!) serem reproduzidos em pleno anos 2000, mas agora eu era a professora. Um desses comportamentos, por exemplo, era o “lápis cor de pele”. Cor da pele de quem? – eu perguntava quando algum aluno se referia ao lápis rosa como se fosse pele. Assim, escrevi “Cor de Pele: valorizando as diferenças para as oportunidades serem iguais” (Autografia, 2015). Depois, percebendo a subjetividade das mulheres negras na Educação Infantil, escrevi “Cor de Pele II: (Re) conhecer o passado para compreender o presente e transformar o futuro” (Autografia, 2017). Neste livro dialogo sobre as histórias das mulheres negras em paralelo a história da educação infantil no Brasil. Junto ao “Cor de Pele II” lancei o infantil “Do Gelo ou do Fogo?” (Autografia, 2017), que traz para as crianças a percepção das identidades étnico-raciais.

  • Dos relatos e depoimentos presentes no livro Cor de Pele, qual é o seu preferido? Ele tem algum valor simbólico para você?

Eu gosto de todos! Sou suspeita para falar! rsrsrs

Wilson Prudente (in memorian),  foi um grande intelectual. Um renomado jurista, mesmo do Ministério Público do Trabalho, que trouxe importantes contribuições em suas publicações, como “A verdadeira história do Direito Constitucional no Brasil: Desconstruindo o Direito do Opressor, construindo o Direito do Oprimido”. Prudente, como costumávamos chamá-lo, era um preto retinto. Em seu depoimento para o Cor de Pele, ele conta que quase desistiu da escola. Já imaginou perdermos a intelectualidade do Prudente para o racismo no ambiente escolar.

Outro depoimento que gostaria de citar, é o da estudante Fatou. Neste depoimento, no Cor de Pele II, ela narra episódios de racismo que sofria desde nova na escola particular. Em 2020, os casos de racismo que Fatou depôs para o livro quando ela tinha 12 anos de idade, repercutiu na mídia nacional, expondo negativamente a escola e trazendo a Fatou como uma grande representação nacional de luta antirracista

  • Qual a importância da educação antirracista e o que você acha de iniciativas como a criação de bibliotecas afrocêntrica? Você conhece outras iniciativas como estas? Quais?

A educação antirracista é fundamental para almejarmos uma sociedade verdadeiramente democrática. Não há democracia com povos oprimidos. No caso do Brasil, não podemos naturalizar as mortes de índios e negros! A falta de acessos aos bens e serviços, saúde, justiça. A educação antirracista propõe para além do conhecimento identitário do povo Brasileiro, democratizar o currículo escolar com as narrativas e historicidades que verdadeiramente compõe a nação brasileira. Assim, vislumbra-se um país verdadeiramente justo e democrático, quando os direitos e oportunidades passarem a ser iguais.

A biblioteca afrocêntrica é uma alternativa para o conhecimento da África enquanto berço da humanidade. Deste modo, é necessária para romper histórias distorcidas, por vezes, até mesmo inverídicas, sobre o continente africano distorcendo o imaginário popular para mazelas sociais. Conhecer o continente africano é se dar conta da potência de África para a humanidade e o quanto o povo africano contribuiu e contribui para as ciências e tecnologias.

O livro “Cor de Pele” sobre educação étnico-racial, onde fala das omissões raciais tão presentes ainda nas escolas, sobretudo de educação infantil, a partir do lápis de cor de pele que é apresentado as crianças para a elaboração do esquema corporal ou auto-retrato. Já no segundo livro “Cor de Pele II” ela trás inquietações a cerca da educação infantil: “Por que as professoras da educação infantil têm o menor salário diante todos os outros segmentos da educação? Busquei a resposta na história da educação infantil paralela a história das mulheres negras. As mulheres negras sempre tiveram a tarefa dos cuidados desde a casa grande e depois nas casas das elites. É um livro que estou muito feliz por tê-lo escrito. Demonstra que o estigma racial é muito presente na educação, na educação infantil, sobretudo nas mulheres negras.”

By | 2021-04-02T10:20:45-03:00 fevereiro 16th, 2021|entrevistas|0 Comments

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